Azamat (Ayan Utepbergen) e Tansholpan (Dilnaz Kurmangali), jovem casal enterrado em dívidas, encontram um plano para sair do sufoco: fingir uma doença terminal e criar uma campanha de crowdfunding, iniciativa que depressa sensibiliza todo o Cazaquistão. Contudo, quanto mais a mentira perdura, mais venenosa se torna, até o caos começar a suceder à vida do casal.
Sucesso de bilheteira cazaque, com direcção de Aitore Zholdaskali, é uma prometida comédia negra que, em rasgos e intermissões, revira num conto de violência e brutalidade, aludindo ao sistema social frágil do país e a outros títulos na consciência política. Só que aquilo que nos chega é mais o explícito, e o gosto pelo saque e pelo ensanguentado, do que o comentário político-social que o cinema cazaque (daqui, o pouco que chega à costa oeste) nos tem presenciado (recordo recentemente um embrião do cinema de Östlund, “Bikechess”, de Assel Aushakimova, estreado na Tribeca de 2024, a original não a pseudo-cópia lusa).
Habituados a este estratagema rebelde, “Sicko” (não confundir com o filme de Michael Moore, e a realçar o mais manipulatório dos seus registos) acaba por ceder ao lúdico e ao fascínio da sua animalidade. Enfim, se fossem esses os seus problemas, ficaríamos mais descansados, mas nada disso … o real problema não está no seu enredo (apesar das suas incoerências narrativas e do desenvolvimento das personagens, esperava-se algo mais rocambolesco), mas na sua garantida inspiração no cinema sul-coreano (um “Parasite” 2.0 sem esse lado atento à sociedade), mas no seu formato, tantas vezes reconhecível nas plataformas de streaming, nessa transfusão constante de identidades até conceber o modelo lógico para espectadores em vão.
“Sicko” perde sobretudo ao tentar alcançar essa mesma personalidade. Torna-se “engraçado” ao camuflar-se no cinema dos outros, ao contrair uma linguagem própria desses canais de fácil acessibilidade. Será que o comercial, principalmente o de género, da nossa contemporaneidade tem estado desesperado por atender todo o tipo de ecrãs e todo o tipo de concentrações?
Pois bem, sairemos da sala com “thumbs up”, “é divertido”, pensarão muitos; “não dei pelo tempo passar”, pensarão outros. O certo é que, mesmo no Cazaquistão, a fórmula já lá aterrou … e em primeira classe.

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